O estrago do mundo digital: pesquisa mostra declínio de jovens e adultos em matemática e leitura

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  • Um alerta global: cerca de 20% dos adultos em nações desenvolvidas enfrentam dificuldades com habilidades básicas de leitura e matemática, mostrando desempenho inferior ao de estudantes do ensino fundamental. A OCDE aponta que esse declínio intelectual é agravado pelo uso excessivo de tecnologias digitais, impactando tanto a renda quanto a capacidade de discernir informações.

Surge uma questão pertinente: qual o impacto das novas tecnologias recheadas de inteligência artificial e algoritmos na educação de crianças e adultos? Outra dúvida mais desconfortável é: os adultos são necessariamente mais capacitados para enfrentar desafios intelectuais do que os adolescentes? A resposta pode ser mais complexa do que se imagina. Um estudo recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que aproximadamente 20% das pessoas entre 16 e 65 anos têm um desempenho em leitura e matemática semelhante ou pior do que o esperado de um aluno que terminou o ensino fundamental. Nos últimos dez anos, a capacidade intelectual de pais e mães tem se mostrado em declínio constante, o que é alarmante, especialmente considerando que a pesquisa abrange 160.000 indivíduos em 31 países desenvolvidos, que ocupam o topo da pirâmide social.

O Survey of Adult Skills, nome dado a essa pesquisa, é realizado a cada dez anos para medir as competências dos adultos. Seu principal objetivo é verificar se os cidadãos têm as habilidades necessárias para manter um emprego e prosperar na vida diária. Os testes avaliam a habilidade de uma pessoa de ler e compreender informações simples, como bulas de medicamentos ou rótulos nutricionais de alimentos. Eles também medem a capacidade de realizar operações bancárias básicas que envolvem adição e subtração. Assim, não se trata de questões complexas, mas sim de competências fundamentais — e os resultados são preocupantes. A pesquisa da OCDE demonstrou que um melhor desempenho em leitura e matemática está associado a salários 75% maiores em comparação com aqueles que enfrentam dificuldades. Estudos paralelos também indicam que os indivíduos mais capacitados têm maior probabilidade de viver mais e desfrutar de melhor qualidade de vida.

Os resultados esperados incluem a boa performance de países como Finlândia, Holanda, Noruega, Japão e Inglaterra. Entretanto, as estatísticas dos Estados Unidos mostraram uma queda significativa, assim como as de Portugal, Itália, Polônia e Chile. Aproximadamente metade da população chilena encontra-se em um nível de desempenho tão baixo que se aproxima dos índices da parte inferior de 8% da população japonesa. Esses dados contestam a ideia adotada por muitos de que o crescimento econômico, medido pelo PIB, assegura a qualidade educacional. Na verdade, o impacto é muito mais significativo das escolhas políticas que os países fazem em relação a suas educações. “Os países têm a opção de desenvolver sistemas educacionais mais eficazes, e, se conseguir, isso será extremamente recompensador”, afirma Andreas Schleicher, diretor de educação e assessor especial em política educacional da OCDE.

DOIS E DOIS... - Dificuldades com cálculos: ruim até para operações bancárias
DOIS E DOIS… - Dificuldades com cálculos: ruim até para operações bancárias (Alfexe/Getty Images)

A mensagem, embora otimista, traz necessariamente uma advertência: bons resultados são consequência de decisões educacionais inteligentes, como as adotadas pela Finlândia e Japão, que focam no desenvolvimento a partir da educação formal e tentam limitar o acesso excessivo ao ambiente digital, que muitas vezes resulta em superficialidade. De acordo com Schleicher, um dos obstáculos para o progresso educacional é que muitos adultos deixaram de lado a leitura de textos mais longos, que desenvolvem o raciocínio, em favor de redes sociais, principalmente o TikTok. Essa é uma realidade triste, mas indiscutível: à medida que a civilização se aprofunda na digitalização, também retrocede em sua capacidade de absorver informações. Não se trata de um saudosismo em relação ao passado; é um chamado à ação — ainda há tempo para melhorar.

Então, o que dizer do Brasil, que não participou da coleta de dados da OCDE? Aqui, os sinais de alerta também se acumulam, extrapolando os limites do sistema educacional formal. O Inaf, que avalia o nível de alfabetismo funcional da população entre 15 e 64 anos, apresentou em 2024 uma queda de desempenho entre os jovens de 15 a 29 anos — precisamente a geração que cresceu rodeada de telas. Além disso, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, revelou um dado alarmante: mais da metade dos brasileiros (53%) não leu nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Essa redução no hábito de leitura não é meramente cultural, mas afeta diretamente a capacidade de concentração, argumentação e raciocínio abstrato.

Para muitos especialistas, que analisam a questão além da mera perspectiva social, o que se observa é um esgotamento do modelo educacional tradicional, que não está adaptado às transformações tecnológicas e cognitivas da contemporaneidade. A presença de países desenvolvidos nas listas de baixo desempenho não é surpreendente. “Não se trata apenas de uma queda nas habilidades avaliadas ou da inadequação da educação formal, mas de um reflexo de fenômenos mais amplos, que estão entrelaçados com as crescentes complexidades do cotidiano”, explica Maria do Rosário Longo Mortatti, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização. Essa é uma situação que exige atenção. Não existe pleno uso da tecnologia sem o domínio das habilidades básicas de leitura, matemática e ciências. Essas competências são essenciais para distinguir fatos de opiniões, dados de manipulações, e sustentam a capacidade de compreender contextos, interpretar informações e tomar decisões racionais em um mundo saturado de estímulos.

Quando essas bases falham, a tecnologia se transforma de uma ferramenta de emancipação em um amplificador de desinformação, superficialidade e dependência. Albert Einstein, que em sua época já percebia essa realidade, afirmou que, se a tecnologia sobrepujar a interação humana, “o mundo terá uma geração de idiotas”. À luz dos dados atuais, essa frase impactante soa mais como um aviso sério do que uma mera provocação.


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