A passagem frequentemente citada de Charles Darwin, datada de 3 de julho de 1832, tende a causar estranhamento quando lida isoladamente. No entanto, a observação faz parte de um conjunto de impressões anotadas pelo naturalista durante sua estada no Brasil e precisa ser entendida à luz do choque que ele viveu ao testemunhar o sistema escravocrata local.
Darwin permaneceu cerca de quatro meses no Brasil durante a viagem do navio HMS Beagle, que aportou em Salvador em 28 de fevereiro de 1832 e também visitou Fernando de Noronha, Recife e o Rio de Janeiro. A experiência o marcou tanto pela exuberância da natureza quanto pela violência social observada nas cidades e no campo.
Nos relatos científicos da expedição, o naturalista exaltou a flora e a fauna brasileiras: “Delícia é um termo insuficiente para exprimir os sentimentos de um naturalista pela primeira vez em uma floresta brasileira”. Durante a jornada, catalogou milhares de espécimes — entre fósseis, plantas e animais — que enviou periodicamente a seus correspondentes em Londres.
Por outro lado, seus escritos privados revelam angústia diante da escravidão. Ao deixar o país, Darwin registrou “Espero nunca mais visitar um país de escravos” e confessou que seu “sangue fervia” ao notar a contradição entre os ideais de liberdade proclamados por Inglaterra e Estados Unidos e a realidade do cativeiro.
O naturalista descreveu ter presenciado punições frequentes e cruéis contra pessoas escravizadas. Em Pernambuco, relatou ter ouvido gritos que identificou como os de alguém sendo torturado e afirmou sentir-se “impotente como uma criança”, lembrança que o acompanhou por muitos anos.
É nesse contexto que surge a frase polêmica: “Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade”. No trecho, Darwin aponta o que via como ignorância, covardia e indolência, embora também reconheça aspectos positivos como hospitalidade e bom humor.
Pesquisadores e historiadores alertam que a crítica de Darwin não se dirige à população em bloco, mas concentra-se nas elites escravocratas e na estrutura social que naturalizava a violência contra pessoas negras. Seu olhar foi influenciado por valores abolicionistas e pela sensibilidade moral cultivada em seu ambiente familiar.
Além do choque moral, a vivência no Brasil contribuiu para a formação intelectual de Darwin. O contato direto com a questão da escravidão reforçou reflexões sobre ancestralidade comum e igualdade entre os seres humanos, ideias que mais tarde seriam incorporadas à Teoria da Evolução. Ao regressar à Inglaterra, em outubro de 1836, ele já desenvolvia considerações sobre a origem das espécies; em 1859 publicaria A Origem das Espécies, reconhecendo a importância das observações feitas durante a viagem do Beagle.
Fonte: https://diariodocomercio.com.br/mix
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